segunda-feira, 13 de maio de 2013

A peregrinação a Fátima


Estas são as primeiras grandes referências no Diário de Lisboa sobre peregrinações a Fátima, recordando as aparições de 1917.


(Diário de Lisboa, 13 de Maio de 1925)


(Diário de Lisboa, 13 de Maio de 1933)

Ontem à tarde um homem das cidades - Alberto Caeiro



"XXXII

Ontem à tarde um homem das cidades

Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.

E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos

E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.

(Mas eu mal o estava ouvindo.

Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu—não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)

Eu no que estava pensando

Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.

(Louvado seja Deus que não sou bom,

E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com o florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa—existir claramente,
E saber fazê-lo sem pensar nisso.)

E o homem calara-se, olhando o poente.

Mas que tem com o poente quem odeia e ama?"


s.d.“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). - 56.
“O Guardador de Rebanhos”. 1ª publ. in Athena, nº 4. Lisboa: Jan. 1925.


sábado, 11 de maio de 2013

Álvaro de Campos - O que há em mim é sobretudo cansaço




O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...


9-10-1934
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 64.


Gandhi - Artigo do Jornal de Lisboa de há 80 anos


(Jornal de Lisboa, 11 de Maio de 1933)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

A Ponte


entre o agora e o agora,
entre o que sou e o que és,
a palavra ponte.

entrando nela
entras em ti:
a palavra liga
e fecha como um anel.

de um banco ao outro
há sempre
um corpo longo:
um arco-íris.
dormirei sob as suas cores.

Octavio Paz Lozano (Cidade do México, 31 de Março de 1914 — Cidade do México, 19 de Abril de 1998) foi um poeta, ensaísta, tradutor e diplomata mexicano, notabilizado, principalmente, por seu trabalho prático e teórico no campo da poesia moderna ou de vanguarda. Recebeu o Nobel de Literatura de 1990. Escritor prolífico cuja obra abarcou vários géneros, é considerado um dos maiores escritores do século XX e um dos grandes poetas hispânicos de todos os tempos.









domingo, 14 de abril de 2013

Hitler - A premonição de um massacre? / The premonition of a massacre?


Esta imagem está na capa da edição do Diário de Lisboa do dia 14 de Abril de 1933 - há exactamente 80 anos. É, na minha opinião, impressionante, tendo em conta que Hitler apenas chegou ao poder na Alemanha no dia 30 de Janeiro de 1933. Parece uma premonição dos crimes que iriam ser cometidos nos anos seguintes por Hitler (e seu regime) - o Holocausto.

This image is in the cover of the Diário de Lisboa edition of April 14, 1933 - exactly 80 years ago. It is, in my opinion, impressive, considering that Hitler only came to power in Germany in January 30, 1933. It seems a premonition of the crimes that would be committed in subsequent years by Hitler (and his regime) - the Holocaust.



A Luz / The Light



terça-feira, 12 de março de 2013

"Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!"


"Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha."

in Ode Marítima, Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)


sexta-feira, 1 de março de 2013

No teu poema...


"No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida

No teu poema existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.

Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da Senhora da Agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha.

No teu poema
Existe um canto, chão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano

Existe um rio
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra
E um só destino a embarcar
No cais da nova nau das descobertas

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro."

(de José Luís Tinoco)

"My God, My God" by Hannah Szenes



Hannah Szenes foi poeta e dramaturga, escrevendo tanto em húngaro como em hebraico.

Este é um dos seus mais conhecidos poemas e chama-se Halikha LeKesariya ("Uma caminhada para Cesareia"), comummente conhecido como Eli, Eli ("Meu Deus, Meu Deus"), e foi escrito durante o cativeiro Nazi.

A melodia, bem conhecida, foi composta por David Zahavi. Muitos cantores têm cantado esta melodia, inclusive Ofra Haza, Regina Spektor, e Sophie Milman, tendo sido usada para fechar algumas versões do filme "A Lista de Schindler":

"Meu Deus, Meu Deus, eu rezo para que estas coisas nunca acabem,
A areia e o mar,
O rumor das águas,
A luz dos céus,
A oração do homem."

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

On accepting you as you are by Johann Wolfgang von Goethe


“If I accept you as you are, I will make you worse; however if I treat you as though you are what you are capable of becoming, I help you become that”

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

"ORTOGRAFIA - O argumento da uniformização…"


"A ortografia é um fenómeno da cultura, e portanto um fenómeno espiritual. O Estado nada tem com o espírito. O Estado não tem direito a compelir-me, em matéria estranha ao Estado, a escrever numa ortografia que repugno, como não tem direito a impor-me uma religião que não aceito."

s.d.
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993. - 119.